Transferência Amorosa e Abstinência

Transferência Amorosa e Abstinência

A Regra de Abstinência na Transferência Amorosa é De Suma Importância

Como nem tudo é resistência, mas tudo é transferência, a transferência se torna resistência quando se estabelece uma transferência erótica.

Se isso acontece a postura do analista deve ser a de não arredar o pé da regra de abstinência.

Lembremos que nos tempo de Freud, a neurose costumava ser o tipo de comprometimento psíquico resultante de conflito psíquico que mais aparecia na clínica, apresentando-se como uma obsessão, histeria ou fobia.

Esse conflito se dá entre o Ego e determinados pensamentos, lembranças e fantasias que a princípio causam muito prazer. No entanto, por estar em desacordo com a imagem que se tem de si mesmo, o Ego os manda para o inconsciente onde ficam recalcados.

Segundo Freud, a neurose poderá se estabelecer no momento em que esses pensamentos recalcados tiverem oportunidade de ser “reativados”. Quando isso acontece a pessoa vai se defender para não permitir que eles se manifestem novamente a fim de que sua linda imagem não seja maculada.

Neste momento inicia-se uma luta entre o Ego e os pensamentos recalcados onde não há vencedor, pois ambos entram em uma espécie de acordo.

Esse acordo trata-se de que o recalcado se manifeste de uma forma disfarçada. Então, isso seria a neurose, esta forma camuflada que o recalcado se apresenta.

Considera histeria quando o recalcado se disfarça por meio de sintomas no corpo, como, por exemplo; dores, vômitos, formigamentos, parestesias. No que chamamos de neurose obsessiva, o disfarce se apresenta por meio de pensamentos triviais que se fixam na cabeça da pessoa. E na Fobia, ele se figura por meio do medo de um objeto, animal ou mesmo uma situação.

Bom, voltando a regra de abstinência para entender porque ela é importante no processo psicanalítico e especialmente no manejo da transferência amorosa.

Acontece que os pensamentos, fantasias e lembranças recalcados entram em ação novamente quando a libido, a energia sexual retorna para eles e isso acontece quando ela não tem mais para onde ir.

Falando mais diretamente sobre a transferência amorosa devemos levar em consideração que se estamos bem numa relação satisfatória, boa parte da nossa libido está direcionada para tal pessoa e o recalcado não tem força para ir para nosso consciente e assim não poderá ser tratado.

Mas, se por algum motivo essa relação for interrompida essa libido fica livre para trazer o recalcado à tona e entrarão em luta com o Ego novamente.

Vemos que só é possível a neurose aparecer por causa deste “acordo” entre o recalcado e o ego quando a realidade deixou o indivíduo num estado de abstinência.

A maneira de não permitir que o recalcado seja sempre uma ameaça é criando condições para que ele possa se manifestar e vir para a consciência.

E a neurose é exatamente uma das condições tornar isso possível. Como vimos, os sintomas neuróticos são formas disfarçadas do recalcado.

É importante reforçar que a neurose só aparece após uma frustração e pode vir a desaparecer em função de uma nova ligação amorosa.

Portanto, é por isso que a abstinência de satisfação amorosa para com o paciente é tão essencial no processo de análise, uma vez que é neste contexto que o recalcado poderá ser reavaliado pelo paciente em análise.

Se o analista aceitasse a demanda de amor do paciente, o vínculo amoroso entre o paciente e o analista tomaria o lugar da neurose e impediria que o tratamento continuasse.

Então, de acordo com o ponto de vista de Freud, é por este motivo que é necessário recusar a demanda morosa do paciente. Há a necessidade de manter o paciente em um estado de insatisfação suficientemente tolerável para que o recalcado possa permanecer se manifestando e se tornar objeto da consciência.

Podemos concluir que a regra da abstinência é um direcionamento técnico que possibilita ao paciente e o analista descobrirem e analisarem o material recalcado.

Freud costumava observar que era comum que os pacientes melhorassem logo nos primeiros meses de tratamento e atribuía isso a própria relação entre a dupla analítica. Nessa fase o paciente estaria investindo no analista a libido que até aquele momento estava sendo ligada aos pensamentos recalcados.

Somente com o fato do analista não oferecer a contrapartida do investimento da libido do paciente nele, é que pode se fazer com que essa fase desapareça, fazendo com que a libido do paciente não tenha alternativa a não ser retornar para onde estava, ou seja, no recalcado promovendo o aparecimento da neurose. Desta vez, seria dirigida ao analista para que possa ser identificada e tratada.

Com esta postura, mantendo o tratamento em abstinência com a recusa em ceder a demanda de amor do paciente, o analista permite que a doença que se originou fora do consultório seja atualizada no interior do setting analítico.

É isso que possibilita ao paciente e ao analista trabalharem o recalcado, assim como as formas que o ego tem de se defender contra o recalcado não como restos de um acontecimentos passado, mas como fenômenos atuais.

Envie seu comentário