As Palavras Não Saem, E Agora?

As Palavras Não Saem, E Agora?

Não Sei Dizer Se As Palavras Não Saem Ou Se Elas Não Vêm.

Por Sandra Almeida

O silêncio, por parte do paciente, é considerado uma forma de resistência ao tratamento. Considera-se resistência tudo aquilo que se impõe durante o processo psicanalítico infringindo a regra fundamental da psicanálise; a associação livre, com o objetivo de impedir a resolução das neuroses.

Ou seja, tudo que o paciente faz usando palavras ou por atos durante o tratamento, que se opõe ao acesso ao seu inconsciente é considerado como resistência.

Há várias formas de manifestação de resistência. Ela geralmente está presente o tempo todo no processo analítico e não se apresenta em momentos específicos. Ela está intimamente ligada aos mecanismos de defesa.

Esses mecanismos afloram para evirar situações “indesejadas” que surgiriam se os desejos inconscientes sexuais ou agressivos se expressassem, livre e diretamente, na consciência ou no comportamento, impedindo a cura. Podemos deduzir, de acordo com Freud, que o Ego entende que a cura é um perigo.

Mas, como colocado por Anna Freud (1963), em seu livro O Ego e os Mecanismos de defesa, as resistências geralmente proporcionam entendimento sobre o funcionamento mental do paciente. Elas refletem o tipo de conflito e as defesas utilizadas pelo paciente. Assim, a análise das defesas frente a análise das resistências tem um papel determinante na técnica psicanalítica (Hartmann, 1951; glover, 1955, Anna Freud, 1965).

O analista precisa analisar a resistência com o paciente, mas antes disso é necessário reconhecê-la como tal. Ela se apresenta de diversas formas complexas e sutis, misturadas e combinadas.

É importante estar atento para o fato de que apesar do paciente estar trazendo conteúdos inconscientes não impede que uma resistência importante esteja em ação ao mesmo tempo.

O Silêncio do Paciente

O silêncio do paciente é a forma mais comum de resistência indicando que ele não está disposto a falar sobre seus conteúdos, sejam eles conscientes ou inconscientes. Neste caso, é dever do analista investigar porque isso está acontecendo.

Apesar de que é possível que em determinado momento o paciente simplesmente não esteja com vontade de falar, não caracterizando necessariamente uma resistência.

A fala é instrumento primordial no trabalho psicanalítico, então, é essencial que o analista esteja atento a este sistema de defesa e em um primeiro momento interpretá-lo, mas também ajudar o paciente a superá-lo.

No entanto, Ferenzi nos ensina que o silêncio deve ser respondido com o silêncio para que isso contribua para que o paciente se motive a falar com receio de colocar o analista numa posição enfadonha.

A postura do analista é de aceitar de forma tranquila o silêncio do paciente como uma forma de relação com ele e não ceder à pressão que o silêncio do paciente pode gerar no analista, o que seria uma contra-transferência.

O Silêncio do Analista

Por outro lado, o silêncio do analista deverá ser sempre usado de forma consciente, uma vez que o silêncio dele pode ter muitos significados para o paciente, desde um apoio caloroso até uma exteriorização de crítica e de distanciamento.

Claro que essas situações dependerão de situações transferenciais assim como das contratransferências.

O silêncio é também causador de tensão, que os pacientes suportarão na situação analítica, por isso, ele deve ser usado de forma consciente com qualidade e energia. Sendo assim, o silêncio do analista é uma forma de intervenção tanto passiva quanto ativa.

O silêncio do analista pode ser precioso para os pacientes para que eles possam ter tempo para entrar em contato com seus pensamentos, sentimentos e fantasias que virão do seu interior. Assim como motivará o paciente a se comunicar e enfrentar seu discurso e suas emoções sem que haja desvios.

No final das contas, esse silêncio se transforma em um instrumento poderoso para o analista. Sabemos que para conhecermos o outro profundamente temos que ouvi-lo. O analista, ao silenciar-se prioriza a fala do paciente, dando a ele oportunidade para se expressar livremente e espaço para que a regra fundamental da psicanálise se estabeleça.

Quando a fala se estabelece, cabe ao analista acolher com empatia seja o que vier, sem memória, sem desejo e sem ânsia de compreensão (imediata), que eu acrescentaria também: sem julgamentos.

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